Caro amigo, tu não vês, mas já são altas horas da noite e não consigo parar de escrever. Sempre que tento, acode-me uma ideia, um verso, e todo o intento vai por água abaixo. Não sou Drummond, tampouco escrevo Tabacarias, mas o que escrevo me sai tão puro, tão cru, a mais pura verdade de um sentimento, pois é o sentimento primeiro, o que nasceu e não teve tempo de ser disfarçado ou mentido. Escrevo para continuar vivendo. Ou melhor, para continuar seguindo.
Teatro. Vejo-me no palco, no meio do tablado, Dizendo belas frases desconexas. Proclamos Shakespeare, faço promessas de amor e clamo aos céus. Tem ali tanta expressividade, tanto de mim. Estou triste. Choro não sei porquê. A luz está em mim, mas eu não sou o foco. É ela, é a expressão em meu rosto que eles querem ver. É a pura tristeza, angústia do artista incompreendido.
O amor, hum hum, não para mim, qualquer um, este sempre, não ao não tido, aquilo brinca das voltas, aproxima-se sem estar a mostrar-se, como contraste de veludos,fere-me, ou cansa-me, de acordo com os dias.
O amor, hum hum, aquilo não vale nada, aquilo preocupa-me de todo, e aquilo disfarça-se suave, quando aquilo brame, quando aquilo morde-me, então sim. Aos piores pânicos, todos, porque quero, hum hum, ainda.